
Não resisti a comparação entre o meu pais e um outro, o que é tão apanágio da sociedade portuguesa, e que nos faz inundar os nosso telejornais de estatísticas e mais estatísticas, vistas quase como verdades supremas e absolutas.
Esta comparação que fiz, fi-la de uma forma especifica relativamente a um tema importante em qualquer sociedade e que nos passou sempre ao lado por cá. Falo dos contratos de trabalho vigentes na sociedade europeia. A primeira conclusão que tiro de tudo quanto se está a fazer um pouco pela Europa e quiçá mundo é que na sociedade do século XXI , os governos estão-se a tornar reféns da economia voraz e cruel, sobretudo uma economia muito capitalista que nos vai sugando até não pudermos mais.
Recentemente houve novamente conflitos em França. Desta vez, foram os estudantes que saíram em massa às ruas de Paris para protestarem contra o chamado CPE, uma espécie de "bombom" que o governo francês quis dar aos desgraçados dos patrões e empresários, cada vez mais desprezados pelas democracias ocidentais. O CPE é muito simples. Sucintamente refere o direito que as empresas têm de despedir sem justa causa qualquer trabalhador com menos de 26 anos, que se candidate ao primeiro emprego durante os primeiros 24 meses de trabalho. Bom! Se o governo estava à espera que isto passasse em claro lá para os lados das universidades, enganou-se. Os estudantes decerto que pensaram: “Mas querem ver que eles nos querem fazer a folha?” E lá foram com todo o direito que lhes assiste, protestar contra mais uma injustiça social. O que é facto é que tanto conseguiram passar a mensagem que até foram capa dos principais jornais mundiais por causa dos conflitos com a policia local de Paris. Pensando bem, se calhar não era bem aquela, a imagem que queriam deixar passar, mas colou e tanto colou que o futuro politico de Villepin ficou comprometido com mais esta brilhante ideia e por outro lado, deixou bem claro que a juventude não anda a dormir lá para os lados franceses, o que já não se poderá dizer da nossa juventude portuguesa.
No nosso pais, como todos se devem lembrar ou não, houve um senhor de nome Mário Soares, senhor simpático por sinal com umas bochechas a lembrar o pai natal, que se lembrou de fazer algo pela sociedade democrática que ajudou a criar. E como foi tão benevolente e generoso, fê-lo de maneira a que ninguém protestasse o que resultou às mil maravilhas. Ora, este senhor decidiu ratificar uma lei que permitiu a criação dos recibos verdes e o trabalho precário, coisa da mesma base do CPE com algumas nuances importantes está claro, mas a ideia de fundo sempre a mesma, o fácil despedimento e a instabilidade social.
Perguntou-me agora, analisando friamente esta questão, se os nossos jovens trabalhadores ou estudantes a procura de emprego, que a única solução fosse que tivessem fosse esse contrato senão nicles de emprego, decidissem sair às ruas para protestar contra esta ideia bestial de Soares, o que teria acontecido? Será que no dia seguinte seriamos capas de jornais europeus ou mesmo mundiais? Não sei, porque o que fica verdadeiramente para história foi uma aceitação quase irritante e um comodismo quase doentio da nossa sociedade. E como a nossa fraca sociedade não protestou, lá passou incólume a lei sem pena nem agravo. Ah! E quanto ao senhor de bochechas parecidas com o pai natal, também se foi, para depois se candidatar ao “poleiro” novamente, saindo derrotado sem pena nem agravo também. Se calhar foi uma maneira do povo português despedi-lo sem justa causa – “meu amigo, temos pena mas o senhor já não serve os nosso interesses económicos, pode desamparar a loja que temos outro candidato ideal para o lugar que pretendia”.
Por isso no fim, vendo estes dois cenários idênticos de injustiça social, cada vez mais penso que o nosso pais é um pais amigo da economia. Deve ser por isso que lá puseram agora no “poleiro” outro senhor de nome Cavaco Silva, professor da economia e responsável por muitas medidas de ajuda aos empresários pobrezinhos do nosso pais.